A sombra
- Sai daqui! Imploro-te! Não voltes mais!
Ajoelhada na ponte com a taxa mais alta de suicídios implorava-lhe que
não me perseguisse mais, ela acenava porém e mal eu me virava estava
novamente ali pronta a seguir todos os meus passos.
O cansaço ganhava sempre esta
batalha, assim nunca me livrava do empecilho negro a minha volta do qual todos
reclamavam. Parti tantos espelhos, tantas montras, tudo o que reflectisse a sua
presença, o meu reflexo já me proporcionava náuseas e todos os meus movimentos
estavam reduzidos, presos naquela que não me deixava mexer.
Passei assim o que nos separava, um pequeno salto daquela ponte e alguns
minutos de sufoco, poderia ver-me livre dela. Apesar de toda essa certeza as
minhas pernas tremiam, puxei então do meu último cigarro, enchendo o meu corpo
ansiosamente de nicotina e... saltei.
Alguns segundos no ar e nenhum grito. O meu controle fora despedido há
alguns minutos e o meu cérebro quase rebentava com tantos pensamentos fugidios.
Água entrava por todos os lados, finalmente um grande splash de liberdade.
Nem
lutei para respirar, fechei os olhos e mergulhei até cair no fundo esboçando assim um
sorriso como há muito não o fazia.
As ultimas bolhas de ar surgiriam na água e com elas o fim da minha
angustia.
Muitos dizem que morrer afogado é das piores maneiras de morrer, para
mim fora o mesmo que fumar um cigarro, acender, deitar o fumo, esperar alguns
segundos, deitar o fumo novamente até o apagar. Sabendo que terei mais
cigarros, ou que é apenas o primeiro, talvez até mesmo o último, todos são
apagados, todos chegam ao fim, mas há sempre mais por ai.
Mais um cigarro há
espera de ser fumado, mais um cigarro que vai chegar ao fim e ser apagado.