A boneca que eu não sou
Por trás das faces
rosadas que dão cor a palidez habitual, dos lábios preenchidos por um encarnado
vivo, dos caracóis negros caídos pelos ombros, do conjunto de roupa perfeito,
do jeito tímido demonstrando pequenas partículas de afecto, das risadas de
criança, de brincadeiras tolas que ninguém mais utiliza, do toque que passa na
pele lembrando a fina seda de outrora, do amor que ganha pó e nem todos os
panos limpam para lá de tudo isso, existo eu e a minha capa.
A minha
companheira de aventuras faça frio ou faça sol, levo-a sempre comigo.
Comecei a tece-la há
alguns anos atrás numa noite gelada entre estilhaços de vidro.
Fechei os olhos
e caminhei sobre eles, sentido cada golpe que perfurava a minha pele arruinando assim todo o trabalho para que eu me tornasse numa boneca perfeita.
Senti-me tola por fazer tal coisa mas algo me relembrava aqueles estilhaços, tinha
de os sentir para saber o que significavam.
Imaginei então em algo para tapar
as marcas dos golpes que ficaram, algo comprido e escuro que disfarça-se a
imperfeição dum trabalho de uma vida supunha. Porém quanto mais estilhaços de vidro
preenchiam o corredor mais longa a minha capa se tornava, eu não era mais uma
boneca comum.
Uma imagem bonita para
quem via, um eu que ninguém sabia quem era...
Eu era a boneca cujas
marcas eram demasiadas para remendar...
Eu era a boneca que já não brincava na sua casa junto de tantas outras bonecas...
Eu era a boneca que alguém largou junto duma prateleira demasiado alta...
Eu era a boneca que se agarrou à sua capa comprida, tapando as marcas de
estilhaços dum vidro que não era meu de um corredor desconhecido...
Eu era..
Mas não sou mais a boneca.
Não tenho medo de pisar os estilhaços necessários...
Eu vou encontrar a saída deste lugar.