odistritoeasluzes
Mais uma viagem de negócios, vestia o meu fato cinzento que dava um ar leve e casual para a ocasião.
Não tinha em mente o que fazer depois da reunião como tal avisei um colega habitual que se as negociações corressem como esperado o encontraria para beber um copo.
Esta viagens eram cansativas porem ficar no hotel era uma alternativa que eu dispensava, a falta de movimento ou uma presenca fazia-me confusao. Vivia com demasiados fantasmas em redor para lhes dar alguma chance de convivio .
Entrei no restaurante e logo o vi acenar dando sinal para que me aproxima-se.
Sentia-me animal na sua presença. Sentia que podia perder o controlo. E esta fina linha fazia com que fosse ainda mais firme nos meus argumentos até mesmo directa demais. Não queria suscitar alguma dúvida quanto as minhas capacidades, nem tão pouco demonstrar alguma insegurança tanto para o negócio como para qualquer relação,era necessário manter os termos assim.
Eu sabia muito bem que a figura que transpirava charme e confiança era truque do diabo como chamaria a minha avó. Por isso absorvia tudo isso numa conversa fluída que determinaria como acabaria a reunião.
Após uma resposta com a qual eu não concordava tive vontade de gritar e praguejar. Deixei que terminasse porem já não conseguia ouvir mais uma palavra que fosse. Era a minha vez de expor os factos.
Não tinha qualquer chance.
Um sorriso aberto e perdia toda essa vontade.
Maldito! Está bem treinado o sacana!- Pensei para mim.
Sorri também e rematei a proposta final.
Enquanto isso numa outra dimensão o negócio havia acabado e o entretenimento havia aberto portas com 50 cadeados, porém alguns deles já um pouco soltos.
Tentei manter-me casual, controlo era chave para não destruir todos os meus valores. Se quebrar um, nunca mais terei limites, serei uma selvagem. Apesar do dom da palavra, disfarcar nao era um dos meus dons.
Estás bem? - Perguntou.
Sim, porquê?
Pareces acelerada. - Respondeu.
É do frio... - Disse meio sem jeito.
Tinha graça questionar algo que era provocado pelo mesmo. Já estava a perder o controlo, sentia o meu corpo estremecer a cada centímetro de aproximação, queria morder-me para sentir outra coisa, para parar com aquilo tudo.
No entanto já estava mais envolvida noutra proposta para lá do negócio, já cruzava as linhas todas entre os meus valores e desejos, o fato cinzento servia-me agora apenas como uma capa profissional.
Não lhe disse a vontade que tinha. Não podia dizer. Até pelo prazer que tirava em negar-lhe o desejo, um sabor doce que amargava pois o meu desejo também eu negava.
Tentei focar-me na única coisa que nos impedia. Nas luzes que iluminavam aquele lugar.
Não havia luz suficiente para a minha negação.
Neguei o mais doce. Mas não neguei tudo.
Não posso negar tudo, o arrependimento de não o fazer mata tanto quanto fazê-lo.
Porém ao fazê-lo era mais uma presa daquela noite.
E o prazer não chegava para cobrir as consequências.
Nem podia misturar tantos assuntos numa paleta só.
Deixei então de lado algumas dessas tintas.
E fixei-me novamente nas luzes até perder a conta de quanto nos rodeavam.
Acordei assustada, estava no avião de volta a casa e a sede que tinha não me permitia dizer nada, nem saber o que era real.
Deixando a meu critério o dia anterior como sonho. E hoje como realidade.