Cadeados Soltos
Nunca tive medo escuro, porque sempre me escondi nele.
Na eterna ideia que todas as imperfeições se dispersavam nele, ganhando segurança assim.
Aparte disso, o escuro sempre apurou também os restantes sentidos para lá da visão, do olhar o outro mas realmente senti-lo, cheira-lo, ouvi-lo, não ouvir palavras mas batimentos, respirações, as pequenas coisas que palavras não conseguem conotar..
Mergulho então nesse escuro, abraço-o, sinto-o aproximar-se, manter-se ali, queria beija-lo, belisca-lo para ter a certeza que realmente é o escuro quem me acolhe, num momento tão certo, sinto-me tão embalada que os meus olhos se fecham, aperto o escuro contra mim, como um pedido, por favor fica aqui.
...
Perdi a noção do tempo que fui levada por imensa escuridão, embalada e segura a ele como uma criança assim me deixei ficar ali.
Porém a protecção era uma fina camada que dividia a escuridão de mim, em alguns segundos estava destruída. A luz invadira aquele espaço, obrigando-me a enxergar tudo aquilo que me rodeava, todas as imperfeições, todos os golpes, derrotas e vitórias que obtivera, tentei respirar fundo, chamar a escuridão de novo. Ninguém me ouvia. Ninguém respondeu. Mais luz entrara, quase cegando os meus olhos...
Caminhei, procurando uma porta, uma saída, um cantinho que me pudesse sentir protegida novamente.
As paredes mexiam, a luz abrira todas as verdades, as inseguranças, era uma bola de luz desenrolava tudo aquilo.
Parei, encostei-me nas paredes irrequietas e observei a minha volta.
Os meus ouvidos começaram a doer, um zumbido ecoava na sala.
Cada vez mais forte, mais forte, insuportavelmente forte...
Dei um salto, abri os olhos, assim acordei na minha cama.
Era mais um sonho...
Apaguei a luz novamente.
Sorri e disse baixinho:
Eu amo-te escuridão.