Ultimo desafio: Confissão

Odeio chuva, mas poucos sabem porquê. Talvez pensem que é pelos motivos mais óbvios. Mas não odeio chuva porque me estraga o penteado ou molha as roupas.

"Eram 8h30 e só tinha aulas lá prás 11h, dormia tranquila pois tinha mais tempo para os meus sonhos tolos.. ouço lá ao fundo um som irritante que me desperta um pouco.. tacteio a mesa a procura do aparelho pronta para o desligar. Olho para o visor meio desfocado e vejo que é a michelle, atendo.

-O que se passa? Estava a dormir meu..

- é hoje... (Soluços)

-É hoje? (Digo meio surpresa)

-O funeral..

(Salto da cama meio parva como tudo aquilo)

-Vem cá ter, dá-me só 15 min 

(...)

Enquanto a água caia sobre mim, só pensava que tudo aquilo só poderia ser um sonho e que a campainha não ia tocar , era tudo mais um sonho tolo..

Triiim....

-Merda, ela veio mesmo, isso significa.. (apoio as minhas mãos sobre o lavatório e faço um esforço para não perder as forças... pois sei que mais lágrimas não ajudam)

Abro a porta e lá está ela sentada nas escadas com a cabeça escondida entre as pernas e as mãos tapam o rosto coberto de lágrimas..

-Desculpa, não me devia ter esquecido mas estou aqui agora.

Ela abraça-me e diz: -Estás aqui agora, é isso que importa..

-Não digas isso, não agora por favor..

(...)

Chovia a potes , o céu estava coberto de nuvens negras, para ajudar  lá estávamos nós vestidos de preto a combinar com todo aquele ambiente frio, escuro, e molhado.. Era um dia negro portanto. Era a primeira vez que assistia a um momento daqueles e para mim era o pior começo de todos. Olhei para aquela sala cheia de pessoas cobertas de preto por fora e por dentro também, pois tanto para elas como para mim era como se um pouco de nós parti-se também.

O irmão dele aproximou-se e como não consigo usar as palavras nestes momentos dei-lhe a mão, ele olhou para mim e disse: obrigada .

Pela primeira vez não respondi "Não precisas agradecer ou De nada" pois sabia que era realmente sentido. Em resposta apertei a sua mão e baixei a cabeça para que as minhas lágrimas não piorassem mais a situação, ele limpou-me as lágrimas e disse: 

-Nunca te vi chorar

-Não choro por razões banais apenas por coisas que são realmente importantes para mim

Ele abraçou-me e disse:

-Adoro-te

No entanto ouço uma voz chamar-me, olhei para trás e vejo a mãe dele, estava irreconhecível, a cara inchada, fria e quase sem expressão.. Fico meio parada a olhar para ela, não consigo falar, apenas chorar. Ela segura a minha mão e diz: "Sempre soube que para lá de toda essa frieza e revolta eras humana e sentias como qualquer um, és uma boa menina Sara. " E passei a minha mão no seu rosto frio e limpei-lhe as lágrimas que caiam após aquelas palavras e baixei a cabeça. 

(...)

Depois de sair dali sentei-me num banco ali ao pé, acendi um cigarro para me acalmar..

a michelle sentou-se a meu lado e disse:

-Devias largar essa merda...

-Eu sei, mas acalma-me..

(Ela encostou-se ao meu ombro)

-Tenho saudades dele..

-Eu também. "

Odeio chuva porque choveu tanto naquele dia que todas aquelas lágrimas sentidas não se ouviram cair no chão apenas se misturavam com a chuva..

Odeio chuva porque chovera logo naquele dia, preferia mil vezes que fosse um dia de vento, pelo menos o vento secaria as lágrimas de todas aquelas pessoas que choraram pela perda de alguém muito importante. O vento poderia nos alucinar com a sua presença limpando-nos as lágrimas como quem diz: "não chores, eu estou aqui".

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